Quase deuses - criaram a primeira "vida" em laboratório

     Considerada por muitos como “um dos maiores feitos da história da ciência”, a “criação” do primeiro ser vivo auto-replicante, feito a partir de DNA sintético (produzido em laboratório) já causa polêmica.  Esse trabalho foi publicado no dia 20/05/2010, pela Science Express, resultado de uma pesquisa (que, por sinal, custou US$ 40 milhões) realizada por cientistas do J. Craig Venter Institute (JCVI).
      Resumidamente, os processos realizados pelos pesquisadores foram:
1 – Através de computadores, foi projetado um DNA, idêntico (exceto alguns trechos de marcação) ao material genético da bactéria Mycoplasma mycoides, parasita de bovinos e caprinos.
2 – Esse DNA foi produzido em laboratório, utilizando produtos químicos e um sintetizador.
3 – Após alguns processos, esse material genético foi transplantado para células de outra bactéria, a Mycoplasma capricolum.
4 – O genoma sintético ativou-se na célula receptora e produziu proteínas, inclusive enzimas de restrição, que destroem o DNA da M. capricolum.
5 – Essa bactéria com novo DNA replicou-se (dividiu-se), originando células de M. mycoides.


     A Teoria da Biogênese, defendida por Francesco Redi e confirmada muito tempo depois, por Louis Pasteur, afirma que a vida somente surge de outro ser vivo preexistente. Porém, a pesquisa do grupo de Craig Venter mostrou uma (ou mais uma) exceção, afinal, os “pais” dessas células são computadores. Brincadeira à parte, o fato é que esse resultado abre espaço para antigas discussões: isso é ético? Não é arriscado? O homem não está brincando de ser Deus?


     Segundo algumas fontes, o presidente da Comissão para Assuntos Jurídicos da Conferência Episcopal italiana (bispo Domenico Mogavero) teria dito: “nas mãos erradas, a novidade de hoje pode representar amanhã um devastador salto ao desconhecido”. Esse receio deriva de vários fatores.
     Para muitos críticos, essas bactérias poderiam escapar acidentalmente dos laboratórios, resultando em danos inimagináveis ao meio ambiente e ao homem, além de haver o risco dos conhecimentos adquiridos serem usados por terroristas. Já os defensores do projeto alegam que as bactérias são enfraquecidas e não sobreviveriam fora do laboratório e ainda afirmam que pouquíssimos cientistas no mundo dominam essa técnica, o que a impossibilita de ser usada em armas biológicas. Será? Num planeta em que o dinheiro “fala mais alto” do que o caráter, nada é impossível.
     Porém, sem dúvida, a maior discussão é a questão ética e religiosa. O mesmo bispo teria afirmado: “o homem vem de Deus, mas não é Deus: é humano e tem a possibilidade de dar a vida procriando e não, construindo-a artificialmente”. Porém, algo deve ser considerado: eu (assim como o próprio Craig Venter) não considero que tenha sido criada uma vida artificial. Foi criado um genoma totalmente sintético e implantado em uma célula existente, com citoplasma, lipídios e várias organelas. Portanto, a bactéria foi usada como uma fábrica (além de possuir capacidade de reprodução) para produzir as proteínas que o novo DNA “ordenou”. Mas essa questão é filosófica e passível de outras interpretações. Vale lembrar que, embora não seja em laboratório, controlar a procriação de animais (com ou sem lucro) é uma forma de manipular a vida de outros seres para satisfazer os próprios interesses. Nossos cães e gatos se reproduzem quando queremos, após “cruzamentos” com outro animal que desejamos... É uma reprodução artificial por meios naturais. Não seria algo similar, guardadas as devidas proporções, ao que foi feito no laboratório?
     É certo que toda descoberta, para que atinja o progresso, enfrenta muitos riscos. Quantos acidentes e mortes ocorreram para que hoje tivéssemos os automóveis, os aviões, as pontes, os medicamentos e as cirurgias, por exemplo? Em troca da criação de organismos que possam ajudar a retirar o dióxido de carbono da atmosfera (diminuindo o aquecimento global), despoluir rios, limpar vazamentos de petróleo, produzir energia limpa, além da possibilidade de descobrir novos medicamentos e cura de doenças, correremos alguns perigos. Se valerá a pena, por enquanto, só Deus sabe.

Autor: Wésley de Sousa Câmara

Referências:
GIBSON, Daniel G.; VENTER, J. Craig et al . Creation of a Bacterial Cell Controlled by a Chemically Synthesized Genome. Science Express. 20/05/2010
(www.sciencexpress.org / 20 May 2010 / Page 7 / 10.1126/science.1190719)