HIV/ AIDS (SIDA)


     O que é HIV? Como age? Por que é tão maléfico? Como é transmitido? O que a AIDS tem a ver com tudo isso?  Enfim, são questões que sempre aparecem quando tocamos no assunto.
     O Vírus da Imunodeficiência Humana, designado pela sigla HIV, foi descoberto na década de 1980 e afeta dezenas de milhões de pessoas no mundo, sendo a maioria africanos. Teve sua origem, provavelmente, a partir do vírus SIV, que causa uma doença, semelhante à AIDS, em macacos. No Brasil estima-se que existam cerca de 630 mil pessoas contaminadas com o HIV.
     Há dois tipos de HIV: o HIV-1 (o mais comum e que culmina com a AIDS clinicamente mais severa) e o HIV-2 (que inicialmente era restrito ao continente africano, mas que teve o primeiro caso confirmado no Brasil em 2010). São vírus geneticamente bem diferentes, porém ambos causam a AIDS (ou SIDA), que significa “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida”. Esse vírus é, provavelmente, o mais completo de todos, no que diz respeito a mecanismos de escape do nosso sistema imune (que nos protege das mais variadas infecções), como veremos a seguir:

TRANSMISSÃO
 
     A principal forma de transmissão é a via sexual (em relações homo e heterossexuais), sendo importante também a via parenteral, ou seja, a contaminação através de transfusões sanguíneas, do compartilhamento de agulhas contaminadas entre usuários de drogas ou do contato acidental (geralmente envolvendo profissionais da saúde) com sangue infectado. Por fim, tem-se a transmissão vertical, que acontece quando a mãe infectada passa o vírus para o bebê, durante a gestação, no momento do parto ou durante a amamentação. Vale destacar que esse vírus não é transmitido através de picada de insetos, nem de contato com saliva, ou seja, compartilhar copo ou beijar alguém contaminado não traz problemas. Porém, algo deve ser dito: embora não seja tão comum, é possível ocorrer a transmissão também através do sexo oral (caso existam feridas, cáries, aftas ou microferimentos na boca), pois além das de possíveis lesões presente na mucosa da boca, as amídalas e a adenóide possuem "afinidade" pelo vírus, que pode entrar por esses locais.
     Outro ponto que deve ser considerado é que pessoas com outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) tem uma maior chance de se infectar com o HIV, assim como de repassá-lo, caso já esteja infectada. Isso acontece porque
as DSTs geralmente provocam lesões nos órgãos genitais, tornando maior a porta de entrada (e de saída) para o vírus.

INFECÇÃO E MULTIPLICAÇÃO VIRAL

     Após alcançar o indivíduo, o HIV infectará e se multiplicará em várias células do Sistema Imune (chamadas "linfócitos" ou "células T", que possuem uma proteína chamada "CD4+", destruindo-as. Outras células imunológicas englobarão essas partículas virais e seguirão para os linfonodos (que são aglomerados de células de defesa, onde acontecem as “ínguas” quando temos alguma infecção) do corpo para destruí-las, porém, o vírus também tem a capacidade de infectar todas essas células. Assim, ao invés de eliminar a infecção, acabam fazendo a disseminação da mesma.
     Porém, no início, esse sistema protetor do organismo ainda é funcionante e vai destruir a maior parte das células infectadas. Porém, aí reside o problema: destrói a maioria, mas não, todas! Esses vírus que ficaram, continuarão se multiplicando, enquanto o corpo do indivíduo luta para destruir as células infectadas. Durante esse período (chamado de latência clínica), que dura em média 8 anos (mas pode variar de 1 a mais de 20 anos), a pessoa não apresenta sintomas e tem uma vida normal (porém, mesmo assintomática, já pode contaminar outras pessoas). Entretanto, durante a nossa vida estamos sujeitos a inúmeras infecções, por diversos outros microorganismos e, conforme acontecem, degradam ainda mais o nosso sistema imunológico. O motivo é simples: o HIV se multiplica sempre que a célula infectada se ativa para lutar contra algum invasor (podendo ser, até mesmo, o próprio HIV). Então, quando qualquer vírus invade o corpo desse indivíduo, essas células de defesa (que estão infectadas) se ativarão para conter o novo invasor. Era tudo o que o HIV precisava, pois assim, se multiplica cada vez mais, aumentando a capacidade de infecção. Resumindo: quanto mais o sistema imune tenta controlar o HIV e os outros vírus (até mesmo o da gripe ou do resfriado comum), mais ele piora a situação. Não é “incrível”?
     Esse aumento nos níveis do HIV e a maior destruição dessas células infectadas fazem com que o indivíduo passe a ter problemas. O que não causava sintomas nos primeiros anos (exceto nos primeiros dias após o contágio, quando podem ocorrer febre, mal-estar e “ínguas”, ou seja, sintomas comuns a diversas infecções virais) começa aos poucos a provocar emagrecimento, febre, diarréia, entre outros sintomas. Esse período de transição é conhecido como “pré-AIDS”.
     O problema vai piorando gradativamente, ocorrendo infecções oportunistas, causadas por bactérias, por fungos, por protozoários e até por outros vírus, como o causador do herpes. Podem ainda aparecer alguns tumores e doenças neurológicas. Essa fase é a conhecida AIDS. Uma pessoa não tratada, após entrar nessa fase, dificilmente sobreviverá por mais de 2 ou 3 anos. Portanto, a AIDS não é uma doença. É o estágio final de uma infecção iniciada há vários anos e corresponde a um momento em que o sistema imune do indivíduo não consegue atuar contra um simples microorganismo (que poderia ser inofensivo a uma pessoa normal), que pode levá-lo à morte.

DIAGNÓSTICO

     É realizado um teste sorológico (a partir do sangue), procurando anticorpos (produzidos pelo corpo para neutralizar o vírus), e acontece em várias etapas (ELISA + WESTERN BLOT), sendo o resultado extremamente confiável (embora, assim como qualquer exame laboratorial, não tenha 100% de acerto). É possível sim haver resultados falsos-positivos (risco de 0,0005%) e falsos-negativos (cerca de 0,001%), porém isso é considerado pelo médico, que associa a clínica do paciente, a história dele e o resultado do exame. Aliando esses três fatores a probabilidade de acerto é de praticamente 100%.
     É importante destacar que existe um período em que a pessoa pode estar infectada, porém não ser detectável pelo exame. É a chamada "janela imunológica", que é o tempo que o corpo leva para produzir anticorpos contra partículas virais a nível detectável pelo teste. Por exemplo: se o indivíduo é contaminado hoje, em média levará de 2 a 3 semanas para ter uma alteração nos padrões do exame laboratorial. Ou seja, não adianta fazer o exame pouco tempo após uma relação sexual desprotegida, pois com certeza o resultado será negativo. Esse período (de não detecção) pode se estender para até 6 meses em algumas pessoas.
     Quando o paciente é sabidamente infectado, será periodicamente monitorado através da contagem do número de células de defesa e da carga viral presentes no sangue, indicando o momento certo de iniciar o tratamento e a escolha do mesmo. As normas variam com certa frequência, mas atualmente (2012), no Brasil, o tratamento é indicado quando o número de linfócitos CD4+ (por ml de sangue) está abaixo de 500 (mesmo se não houver nenhum sintoma). Se houver sintomas de AIDS, o tratamento é imediato, independentemente dessa contagem.
     Jamais doe sangue quando suspeitar que pode estar contaminado com o HIV. Se a infecção for recente, o teste não detectará nada, você acreditará que não está infectado e acabará infectando outra pessoa! O sistema público de saúde possui centros de testagem, que são gratuitos e anônimos. Se tem alguma suspeita, procure um desses locais (postos de saúde, policlínicas ou hospitais) e cuide-se. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais eficiente será o tratamento.

TRATAMENTO
 
     Existem várias drogas antivirais eficientes e atuam em diferentes momentos do ciclo de multiplicação viral. No Brasil, o sistema público de saúde fornece esses medicamentos gratuitamente. Os tratamentos tradicionais são os "coquetéis", ou seja, uma combinação de três medicamentos diferentes, como a terapia anti-retroviral altamente ativa (HAART). Um deles geralmente é a Zidovudina (AZT), porém a combinação é feita de acordo com as características individuais do paciente (como intolerância a algum medicamento), os problemas de saúde que porventura possa ter e conforme a sensibilidade dos vírus presentes em seu organismo. Assim, um complementa o outro, o que aumenta a eficiência do tratamento. Jamais deve-se usar apenas um medicamento para tratar.
     É importante dizer que diferentes pessoas respondem de forma diferenciada aos tratamentos. O objetivo é fazer com que a partir de 2 meses de tratamento (e no máximo 6 meses) o paciente passe a ter uma carga viral indetectável no sangue, além da reposição (aumento) das células do sistema imune (CD4+). Ter carga viral indetectável no sangue não significa cura e também não é sinônimo de carga viral zero. A maioria dos testes identifica um mínimo de 50 cópias/ml de partículas virais. Se tiver 30 cópias, o teste apontará como "indetectável". Porém, o vírus pode sofrer alterações em seu DNA e “tornar-se resistente” ao tratamento, obrigando o médico a trocar os medicamentos. Por isso não existe um tratamento definitivo para o HIV.
     O lado ruim é, além do número de comprimidos a serem ingeridos diariamente, que podem ser vários os efeitos colaterais provocados, como anemia, diminuição na quantidade de plaquetas (dificuldade de coagulação do sangue) e pancreatite (porém esses efeitos dependem dos medicamentos usados).

CONCLUSÃO

     Inicialmente, o HIV era considerado vírus de homossexuais masculinos, pois os primeiros infectados descobertos pertenciam a esse grupo, e de ricos. Porém, atualmente, há uma maior incidência e prevalência da infecção em indivíduos de 25 a 40 anos e heterossexuais, com uma tendência de interiorização e de pauperização da epidemia, ou seja, um aumento da transmissão em cidades interioranas e entre as camadas mais pobres da população.
     Todas as estratégias para evitar a infecção, como o uso de preservativos nas relações sexuais (vaginais, orais e anais), o não compartilhamento de agulhas e seringas e o não contato com sangue de outras pessoas devem ser seguidas. Para os indivíduos infectados, vale o mesmo, para que não contribua para a disseminação do vírus. Além disso, mesmo o indivíduo HIV + deve se proteger de possíveis outras infecções pelo vírus novamente. Isso porque o HIV possui vários subtipos (linhagens) e a “mistura” de dois diferentes poderia provocar a formação de um terceiro subtipo, que pode ser muito mais patogênico e agravar a doença. Além disso, a existência de mais de um tipo (como HIV 1 e HIV 2) ou de mais de um subtipo, pode tornar o tratamento atual ineficaz para este indivíduo.
     Aproveitando o momento, vale dizer que o indivíduo com o vírus não deve ser chamado de aidético, pois além de ser um termo pejorativo, uma pessoa HIV+ não necessariamente terá AIDS (inclusive, o objetivo dos tratamentos é impedir ou retardar esse estágio). Outro ponto a ser destacado é que não devemos aceitar o preconceito e a discriminação com/dessas pessoas, pois apenas sofrem de uma infecção viral, assim como quem tem algumas hepatites, herpes ou gripe!
     Para concluir, um conselho às pessoas com HIV: siga cuidadosamente o tratamento, tomando todos os antivirais corretamente e sempre fazendo o monitoramento da carga viral com seu médico, principalmente as mulheres grávidas, evitando que seu filho adquira o vírus. No meu aprendizado em medicina, percebo que a homeopatia também mostra ser muito eficiente (sem deixar de tomar os medicamentos convencionais), pois além de melhorar vários aspectos da vida do paciente, auxilia na queda dos níveis do vírus. Assim, com esse nível viral baixíssimo (às vezes indetectável), poderá viver praticamente tanto quanto às pessoas não infectadas e o melhor de tudo: com qualidade de vida!

     Quem desejar um estudo aprofundado sobre as evidências de o HIV ser o causador da AIDS, acesse:
http://quackwatch.haaan.com/hiv-aids.html


Autor: Wésley de Sousa Câmara


Referências:
Tortora, Gerard J.; Microbiologia; Ed. ARTMED; 6ª Edição.
http://www.aids.gov.br/

TAVARES, Walter; Rotinas de Diagnóstico e Tratamento das Doenças Infecciosas e Parasitárias; 2005; Ed. Atheneu