Tomar água na hora correta maximiza a efetividade do organismo

MENTIRA!
   Há algum tempo surgiu mais uma corrente de internet (inicialmente em inglês, depois traduzida para o português), muito divulgada em redes sociais, e sugeriram que eu falasse sobre o assunto. Veja a imagem abaixo (o “X” e a palavra “mito” foram colocados pelo blog Saúde a Fundo). Vamos analisar cada afirmação:


"Cerca de 90% dos ataques de coração ocorre de manhã cedo..."
- Realmente a maior parte dos “ataques do coração” (nome popular para problemas cardíacos, principalmente o infarto do miocárdio) ocorre de manhã. E digo mais: é ainda mais comum nas segundas feiras, provavelmente devido à mudança de ritmo na rotina da maioria das pessoas, o que gera um estresse extra. Durante o sono, o metabolismo do indivíduo está em um ritmo mais lento. Quando se aproxima a hora de acordar e logo após levantar-se, o corpo aumenta muito o seu metabolismo e caso a pessoa esteja com o sistema cardiovascular seriamente comprometido, pode não suportar. Sendo assim, o horário mais comum de ocorrência desses eventos é por volta das 9 horas (o que não significa que não ocorram em qualquer outro horário).

"Bebendo água na hora correta, maximizas a sua efetividade no corpo humano"
- O momento em que tomamos água também pode ter diferentes efeitos. Precisamos tomar boa quantidade de água diariamente, mas isso deve ser de forma fracionada durante o dia. Por exemplo: não é bom ficar o dia todo sem ingerir água e em dado momento tomar 1 ou 2 litros de uma vez. Isso poderá fazer muito mal à saúde! Porém, as afirmações feitas por essa corrente não possuem respaldo científico.

"1 copo de água depois de acordar - ajuda a ativar os órgãos internos"
- Não há necessidade de água propriamente dita para ativar os órgãos internos pela manhã. Quando acordamos o nosso organismo já tem sua atividade aumentada. Necessitamos sim realizar o desjejum, tomando um café da manhã que inclua líquidos (suco ou leite) e sólidos (como pão, biscoito e/ou frutas). Essa refeição é importantíssima como fonte de nutrientes para nossa dieta. Os alimentos ingeridos serão os “ativadores” (se é que essa palavra é necessária) do sistema digestivo e fornecerão energia para o trabalho de todos os demais órgãos.

"1 copo de água 30 minutos antes de uma refeição - ajuda a digestão"
- A água meia hora antes da alimentação, se a pessoa está hidratada, não tem muita interferência na digestão. Embora a saliva, as enzimas digestivas e o suco gástrico necessitem de água para serem produzidos, apenas teriam sua produção prejudicada em condições de má hidratação. O pequeno efeito que essa ingestão específica tem é uma diluição do suco gástrico e a ocupação de um certo volume, por alguns minutos, no estômago, fazendo com que alcancemos a saciedade com menor quantidade de alimento. A diluição pode fazer com que alguns alimentos, principalmente os ricos em proteína (como carnes), tenham maior dificuldade em sua digestão. Porém, 30 minutos geralmente é suficiente para que essa água não mais esteja no estômago.

"1 copo de água antes de tomar um banho - ajuda a baixar a pressão sanguínea"
- Tomar água não diminui a pressão arterial (alguns acreditam, equivocadamente, que o corpo eliminará mais sódio e consequentemente cairá a pressão arterial). Em alguns casos (como em alguns problemas renais, cardiovasculares ou hormonais) pode até aumentar essa pressão. Em algumas doenças específicas há ainda a indicação de restrição hídrica, ou seja, uma quantidade mínima de água pode ser ingerida pelo indivíduo. Quanto ao tomar antes do banho, parece-me apenas mais uma “simpatia”, como colocar linha molhada na testa para acabar com soluço. Portanto, o aconselhamento feito por essa corrente pode fazer com que pessoas troquem seus medicamentos por água, o que é no mínimo irresponsável (e perigoso).

"1 copo de água antes de ir para a cama - evita um derrame cerebral ou ataque de coração"
- De forma geral, pode-se dizer que não há nenhum mal em ingerir água antes de dormir, porém também não há nenhuma indicação. Sendo mais específico, não encontrei até o momento (20/08/2012) nenhuma
comprovação científica que tomar água antes do sono previna infarto do miocárdio (que é o músculo do coração), acidentes vasculares encefálicos – AVE (os chamados “derrames cerebrais”) ou outra emergência médica. Pelo contrário! Uma pessoa que tenha um sério refluxo gastroesofágico se tomar um copo de água imediatamente antes de deitar-se, poderá ter o retorno dessa água para o esôfago e até mesmo para a faringe, podendo gerar desconforto, tosse e sensação de afogamento. Outro problema que pode ocorrer é que tomando água antes de dormir, o indivíduo pode ter que acordar durante a noite para urinar. Portanto, tomar água antes de dormir não evita “derrame” ou “ataque do coração”.
   De forma simplificada, o infarto cardíaco e alguns tipos de AVE (ou AVC) ocorrem geralmente devido a uma obstrução dos vasos sanguíneos (artérias) que irrigam o coração ou áreas encefálicas (às vezes cerebrais), provocada pela famosa aterosclerose. O excesso de colesterol no sangue, entre outros motivos, com o passar dos anos promove um estreitamento do “tubo” desses vasos, dificultando a passagem sanguínea e, consequentemente, prejudicando a nutrição e a oxigenação do coração. Esse problema pode culminar no infarto (morte de parte de um órgão) ou em outros danos. Em outro texto falaremos em detalhes sobre infarto e aterosclerose.

   Para finalizar, existe o chamado efeito placebo. Se alguém acredita que algo que faça ou que ingira vá lhe fazer bem, realmente isso pode ter um efeito positivo. Alguns problemas de saúde mais simples podem até desaparecer devido ao efeito placebo. Outros, pelo menos diminuem. Porém isso jamais deve ser tomado como prova de eficácia de uma conduta. Um exemplo: uma pessoa que confio pode me dizer que se eu der três pulos vou ficar livre de uma dor em um dedo da mão. Eu terei tanta confiança nisso que farei e poderei ter uma melhora ou até ficar livre da dor. É uma ação a nível mental/psicológico. Portanto, algumas pessoas podem afirmar que se sentem melhores após fazer um ritual, como ingerir um copo de água em dada circunstância. Isso realmente pode ocorrer.
   Consumir pouca água (líquidos) pode levar à desidratação e a sérios outros problemas, inclusive cardíacos. Sendo assim, é necessário tomar bastante água. Caso nosso organismo esteja funcionando corretamente, também não teremos problemas com o outro extremo: o excesso de água. Isso porque possuímos mecanismos para impedir a ingestão excessiva de líquidos e até mesmo para eliminar o que porventura esteja “sobrando”. Porém, caso a pessoa tenha algum distúrbio, a água ingerida em excesso (leia “alguns litros”) também trará prejuízos.

   Resumindo: Tome bastante água, de forma fracionada, durante todo o dia. Mantenha-se sempre hidratado! E se quiser evitar os chamados “derrames” e “ataques cardíacos” citados, fuja dos chamados reais fatores de risco, que são: sedentarismo, fumo, má alimentação, colesterol elevado e hipertensão.

Autor: Wésley de Sousa Câmara