DESABAFO: Somos impotentes e arrogantes

 

     Amo a medicina, mas não posso deixar de ter muitas indignações com o pensamento dominante no meio médico. Um deles é o argumento que a maior prova de que muitas das novas técnicas diagnósticas e terapias são maravilhosas é que a expectativa de vida está aumentando. Porém parecem não enxergar que o idoso de hoje é a criança de DÉCADAS ATRÁS, que não era submetida a nenhum procedimento ou medicamento moderno. Se formos imediatistas, achando que a vida é reflexo apenas do presente, esse argumento até é válido. Porém, se formos realistas e considerarmos que a saúde do adulto é determinada por um processo complexo, que vai muito além do ambiente ou de sua genética e que as intervenções médicas na criança terão reflexos na vida adulta dela, ficaremos pelo menos "em cima do muro" e deixaremos para concluir se as intervenções atuais foram corretas ou não apenas daqui há uns 50 anos. No máximo, podemos dizer que muitos tratamentos que realizamos eliminam os sintomas e a fase aguda da doença. Entretanto, se isso representa cura, só o tempo dirá.
    Tenho evidências para acreditar que pouco curamos e que apenas aliviamos um problema momentâneo. Uma delas é a nossa dificuldade em lidar com doenças crônicas. A resposta médica geralmente é sempre a mesma: "não tem cura", "terá que tomar este medicamento durante toda a vida", "esta quimioterapia provocará regressão ou até eliminar o tumor, mas poderá lhe causar uma grave insuficiência cardíaca ou ainda induzir o aparecimento de um novo tumor". Mas como o homem moderno é imediatista, geralmente é apenas esse alívio momentâneo o que ele procura, mesmo que traga problemas futuros.
     Enfim, penso que deveríamos todos aceitar os nossos limites e enxergar que o conhecimento médico é "nada" perante a complexidade do organismo humano. Mas enquanto tivermos a arrogância de achar que dominamos o processo de Saúde/doença e que somos (alopatia) a visão suprema da medicina, estaremos amarrados, com um cabresto, vendo diariamente milhares de pessoas padecendo de problemas incuráveis e a nossa opinião continuará a mesma (e ridícula): "somos uma medicina evoluída, estamos no caminho certo, não precisamos rever nada e quem discorda das nossas ações é charlatão ou no máximo um defensor de uma medicina 'alternativa'".
     Não estou aqui combatendo a alopatia e sim, criticando a visão exclusivista que a maioria de seus seguidores possuem, pois achamos que o nosso umbigo é o centro do universo e olhamos com menosprezo para tudo o que por desconhecimento não aceitamos (desculpem-me pela generalização). Quem de nós, médicos ou estudantes de medicina, aceitaria alguém dizer que nós é que somos uma medicina alternativa ou complementar? Minha experiência de convivência me diz que 1 em cada mil estudantes aceitariam tal afirmação sem se revoltar.
     A visão moderna da sociedade mostra que Paracelsus estava errado, pois atualmente, não vale mais a expressão "Quem cura tem razão". Atualmente, tem razão quem segue os protocolos determinados pela visão hegemônica, que parte de premissas que tornam praticamente indefensáveis quaisquer outras visões. Acredito que o primeiro passo para que alcancemos uma maior eficiência é cada racionalidade médica reconhecer seus pontos fortes e suas deficiências, cada uma atuando quando for pertinente, a fim de que o bem estar do paciente seja o único alvo. Mas para isso precisamos perder o que mais combatemos, que é o "PRECONCEITO" e a "ARROGÂNCIA", sendo que o meio mais eficaz para que isso aconteça é apenas criticar ou rejeitar aquilo que realmente conhecemos a fundo (assim teremos argumentos e não seremos meros "papagaios", repetidores de opiniões de terceiros). Não podemos agir com ignorância, como advogados discutindo microeconomia. Dificilmente sairá algo produtivo de uma discussão, se os envolvidos não tiverem profundo conhecimento sobre o assunto debatido.

Por: Wésley de Sousa Câmara