Triste abortamento... (Breve relato)



     Sou contra o aborto, mas hoje tive o desprazer de acompanhar o parto de uma criança de 21 pra 22 semanas de gestação. A mãe estava com a "bolsa" já rompida há um tempo, com sinais crescentes de infecção, tomando antibióticos e com risco de óbito por causa disso. Os obstetras iniciaram medicação para induzir o parto (abortamento), visto que não havia chances para o feto (pela idade gestacional) e havia risco potencial de morte para a "mãe". Ninguém sabia como nasceria o "bebê", se vivo ou morto. Apenas havia o consenso que, caso nascesse vivo, obviamente seria cuidado, entubado, medicado, levado para UTI neonatal, mas não sobreviveria muito tempo. Ela, ciente da situação, porém, em tristeza profunda, infelizmente deu à luz ao bebê vivo. Sim, eu disse "infelizmente". Com sinceridade, jamais achei que desejaria que um pobrezinho daquele não nascesse respirando. Mas então por que foi dito isso? Foi um sofrimento para o pequeno, que sequer tem capacidade de respirar, não tem órgãos totalmente formados e teve seu desenvolvimento interrompido pelo curso "natural" da vida; sofrimento para a mãe, que mesmo sabendo que não havia chances de vida, teve uma esperança cultivada dentro de si e isso apenas gerava mais dor; sofrimento para toda a equipe de médicos, enfermeiros, alunos e funcionários, que sentiram o drama, como se cada um estivesse perdendo um filho. 

     O bebê foi para a UTI e já estou há algumas horas sem informações. Não sei, caso ainda esteja vivo, quantas horas aguentará, mas a dor foi muito maior de ver o sofrimento a cada segundo daquela vidinha ainda em formação do que se ele já estivesse sido "levado ao céu para morar com os anjinhos" antes de sair do útero. Já era esperado que fosse um abortamento (embora tenha nascido vivo, tinha menos de 22 semanas e apenas 420 gramas, logo, é considerado como aborto), e mesmo que ele sobreviva (sabendo que é quase certo disso não acontecer, mas em medicina não existe a palavra "nunca" ou "sempre"), as sequelas em órgãos, principalmente na parte neurológica, podem ser graves. 
     Repito: sou contra o aborto, porém, nessa situação pedi a Deus que o levasse antes de nascer. Sim, acredito em milagres, mas isso não pode ser uma esperança alimentada inadvertidamente em nós e sim, uma dádiva de Deus que vem a alguns quando há um propósito e um bem maior. Se isso acontecer, ficarei feliz como se fosse filho meu sendo trazido de volta à vida, mas vivo como aprendi com Jesus: "Pai, seja feita a Sua vontade e não a minha". Triste pela situação, pela mãe, pela família, porém feliz em saber que a mamãe deve ficar bem. Uma vida foi salva e se a segunda será, não posso responder, mesmo com a estatística desfavorável em mãos.
     Por que fiz esse relato? Pois a criança transmitiu muita coisa a todos. Mas o que? Muita dor e sofrimento, tanto para ele, quanto para os que o acompanhavam. 
     Enfim, a vida é assim. Para salvar a mãe foi preciso interromper a gravidez, então foi feito o possível. Agora, o impossível (o bebezinho que cabe na palma da mão), fica nas mãos de Deus.

Autor: Wesley de Sousa Câmara